sexta-feira, 15 de maio de 2026

O Ônibus da Estrada Esquecida

 


O Ônibus da Estrada Esquecida

Todos dentro do ônibus sentiam que havia algo errado naquela viagem.

Ninguém dizia isso em voz alta, mas o silêncio pesado que dominava o veículo parecia carregar um aviso invisível.

O ônibus havia saído de Belém no final da noite, seguindo rumo a São Luís. A estrada já era conhecida pelo perigo. Acidentes, emboscadas e assaltos eram comuns naquela região isolada.

Mas naquela madrugada existia algo pior.

Algo impossível de explicar.

Uma menina começou a chorar nos bancos do meio. A mãe tentou acalmá-la, apertando sua cabeça contra o peito enquanto fazia carinho em seus cabelos.

Na frente do ônibus, perto do motorista, uma senhora segurava um terço com tanta força que seus dedos tremiam. Seus lábios murmuravam orações quase inaudíveis.

O motorista parecia inquieto.

Suava excessivamente, mesmo com o vento frio entrando pelas janelas entreabertas. De tempos em tempos levava a mão à cabeça, como se sentisse uma dor insuportável.

Então aconteceu.

No meio da estrada surgiu uma viatura policial.

Dois homens faziam sinal para o ônibus parar.

O motorista reduziu a velocidade lentamente.

— Não para! — gritou um passageiro desesperado. — São ladrões!

Uma mulher começou a chorar.

— Eles vão matar todo mundo...

Mesmo assim, o ônibus parou.

Os dois homens subiram armados.

Mas havia algo estranho neles.

Algo errado.

A luz fraca do ônibus atravessava parcialmente seus corpos, como se eles não fossem completamente sólidos.

A menina que chorava começou a tremer.

— Mamãe... são fantasmas...

A mãe tentou silenciá-la, mas seu próprio rosto estava pálido de medo.

Um dos policiais caminhou lentamente pelo corredor.

— Todos os homens em pé. Mãos para cima.

Ninguém reagiu.

Os passageiros obedeceram em absoluto silêncio enquanto os dois revistavam bolsas, mochilas e sacolas.

Nenhum objeto foi roubado.

Nenhuma ameaça foi feita.

Quando terminaram, simplesmente desceram do ônibus.

Antes da porta fechar, um deles olhou para o motorista e disse:

— Boa viagem.

O motorista não respondeu.

Nem sequer olhou para eles.

Apenas arrancou com o ônibus e seguiu estrada adentro, desaparecendo na escuridão.

Os dois policiais ficaram observando o veículo sumir no horizonte.

O mais novo encostou na viatura e acendeu um cigarro.

— Não entendo porque mandam a gente ficar nessa estrada esquecida revistando ônibus no meio da madrugada...

O outro permaneceu em silêncio por alguns segundos.

Depois perguntou:

— Você não ficou sabendo do acidente?

— Não. Eu estava de férias.

O policial então apontou para a estrada vazia.

— Foi com um ônibus igual àquele.

O homem do cigarro franziu a testa.

— Como assim?

— Um assaltante tentou fazer o motorista parar no meio da pista. O motorista não obedeceu. Levou um tiro na cabeça. Sem controle, o ônibus bateu de frente com um caminhão.

O silêncio tomou conta da estrada.

O vento soprou entre as árvores.

— Todo mundo morreu — completou o policial.

O outro homem ficou imóvel.

Seu cigarro tremia entre os dedos.

— Agora que você falou uma coisa estranha me veio à cabeça...

— O quê?

— O motorista daquele ônibus...

Ele parecia ter sangue escorrendo pelo lado da cabeça.

Os dois ficaram em silêncio.

Então o policial perguntou, nervoso:

— Você anotou a placa?

O homem assentiu lentamente.

— Claro.

Retirou um pequeno bloco do bolso e olhou para as anotações.

Quando leu em voz alta, sua expressão mudou completamente.

— OB 1326.

O outro policial empalideceu.

Porque aquela era exatamente a placa do ônibus destruído no acidente ocorrido meses antes.

E que jamais deveria voltar a circular naquela estrada.

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